AULA #09
Argumentação por causas superficial e profunda
por Vinício dos Santos
A sexta e última maneira de construir uma redação é aquela que articula duas causas, sendo uma mais profunda do que a outra.
A argumentação com duas causas, sendo uma mais superficial e outra mais profunda, pode ser usada quando um tema tem uma explicação difundida e conhecida, mas o texto pretende expandi-la, mostrando que há razões mais complexas em jogo – como encontrar um problema e, em seguida, descobrir que há um problema ainda maior por trás.
Quando a base da argumentação são as causas menor e a maior, as respostas para estas questões ajudam a montar o texto:
Uma argumentação que envolve duas causas, sendo a segunda mais profunda do que a primeira, seguirá por um caminho natural: o primeiro parágrafo trata da primeira causa (superficial), e o segundo parágrafo da argumentação trata da segunda (profunda).
A passagem entre primeira e segunda causa requer cuidado, porque é precisa estabelecer que a nova causa apresentada é superior à primeira, e não uma segunda causa ou uma causa oposta. Assim, para fazer a transição entre os parágrafos, conectivos como “além disso” ou “ademais” são inadequados, porque eles sinalizariam que os dois parágrafos estão em igualdade. Do mesmo jeito, conectivos como “Por outro lado”, “Em contrapartida” também estão equivocados, porque sugerem a oposição entre os argumentos, o que não é verdadeiro.
A melhor maneira de garantir a passagem com o efeito pretendido é sinalizá-la, com estruturas como “O cenário X, contudo, está inserido na situação Y”, ou “O problema X, na verdade, é parte de uma situação maior, Y”. Ao trabalhar a segunda causa – que deve apresentar uma explicação mais abrangente e que aponta raízes mais profundas para o problema – é importante não se esquecer da primeira causa, e retomá-la sempre que possível.
Além disso, vale se apoiar bastante no guia de pergunta do início dessa seção: explicar por que o foco está em uma visão mais simplista do problema, ou mostrar que a discussão está inserida em um quadro de onde também partem outros temas são recursos sofisticados de escrita que enriquecem a redação.
A introdução de textos com esta abordagem é semelhante àquela utilizada para a estratégia da causa e consequência: o problema é apresentado, sua relevância é levantada, e o parágrafo é concluído dizendo que a solução para o tema passa por discutir suas causas, que são mais profundas do que inicialmente parecem.
Como a redação está estruturada em duas causas, sendo que uma delas é mais importante, faz mais sentido que a proposta de intervenção sugira medidas que resolvam a causa mais profunda, justamente porque o texto defendeu que tentativas que se voltaram para a razão mais superficial falharam.
A proposta precisa deixar isso claro, inclusive sinalizando que medidas para as razões mais imediatas são ineficientes. Este cenário, contudo, pode ser modificado se a discussão da redação apontar que as causas mais profundas, neste ponto atual, já são irreversíveis. Se isso acontecer, a proposta se volta para a causa superficial, também indicando o motivo de que não abordar a razão mais profunda.
O principal erro que pode acometer a redação com uma causa superficial e outra profunda é não conseguir apresentar explicações que mantenham mesmo este tipo de relação. Vamos tomar de exemplo o tema da redação da aplicação regular de 2020, “O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira”, e usar como recorte a saúde mental dos homens.
Se tomamos como argumentos os fatos de que os homens têm vergonha de procurar atendimento para tratar de questões emocionais, e de que a rede pública de saúde não é eficiente na oferta de cuidados para saúde mental, temos duas causas pertinentes para o tema, mas que são complementares, sem estabelecer uma relação de hierarquia (isto é, uma maior do que a outra). Mas se os argumentos apontarem que a saúde mental dos homens é descuidada porque eles têm vergonha de buscar tratamento, e que o público masculino também não cuida de outros aspectos da saúde por causa de uma tradição de que homens devem superar todas as barreiras por uma noção deturpada de honra e trabalho, então teríamos uma causa menor e outra maior.
A redação com uma causa imediata e outra profunda tem grande valor de argumentação, mas talvez seja a mais difícil de produzir, dada a necessidade do conhecimento maior sobre o tema, e o risco de escrever um texto que não consiga exprimir a hierarquia entre as razões ●
A seguir, observe dois exemplos de redação com argumentação de fundo histórico, sobre o tema 2019 do ENEM, “Democratização do acesso ao cinema no Brasil”. A primeira redação tem diversos problemas, enquanto a segunda procurar seguir a estratégia apresentada nesta aula.
redação um
Antigamente, as pessoas frequentavam mais o cinema, e havia muito mais salas de cinema no país. Hoje em dia, o número de salas diminui, e há menos gente indo ao cinema, em comparação. Assim, é preciso entender por que houve essa mudança e o que ela significa.
Hoje em dia, existem muito mais jeitos de se assistir a um filme: na televisão, no aparelho de DVD, no serviço de streaming ou até de graça na internet. Por causa disso, as pessoas preferem ver o filme em casa do que ir ao cinema. Uma assinatura de Netflix custa 30 reais, e dá direito a assistir quantos filmes quiser, enquanto o ingresso de cinema custa a mesma coisa, mas só deixa assistir a um filme, então por isso as pessoas preferem ficar em casa do que ir ao cinema.
Hoje também as redes de cinema só querem ganhar dinheiro em cima das pessoas, então por isso o ingresso custa caro e nem todo mundo pode pagar. O preço da comida no cinema também é muito caro, e se uma família quiser levar os filhos pequenos, o valor sairá muito alto. Ninguém tem dinheiro para gastar desse jeito, então as pessoas escolhem gastar com outra coisa, como comida ou balada, ao invés de ir ao cinema.
A solução para esse problema é os ingressos de cinema ficarem mais baratos, porque aí as pessoas vão achar que vale a pena ir ao cinema e assistir a um filme na tela grande, ao invés de assistir pelo celular. Quando o ingresso ficar barato, com certeza o cinema vai voltar a ser frequentado pelas pessoas e teremos um país melhor.
redação dois
Segundo dados de 2019 da Ancine (Agência Nacional de Cinema), durante os anos 70, o Brasil possuía mais de três mil salas de cinema espalhadas por todo o país. Atualmente, porém, houve um encolhimento dessa quantidade, para pouco mais de duas mil, concentradas nas grandes cidades e nos cinemas modelo multiplex dos shopping centers. Esta mudança, mais do que uma redução da oferta de lazer, também aponta para uma transformação na nossa maneira de assistir e, em última instância, no direito à arte.
O parque exibidor dos anos 70 indica que o cinema era um negócio lucrativo e altamente popular no Brasil, até por não possuir plataformas rivais para o acesso a filmes. Com o avanço da televisão e, a partir dos anos 2010, dos serviços de streaming, há uma explosão nas oportunidades para assistir a um filme. Paradoxalmente, este aumento é favorável à democratização das obras audiovisuais, mas prejudicial à experiência de ir ao cinema, que diante das facilidades do consumo doméstico, passa a ser entendido como uma opção onerosa e para poucos.
A facilidade tecnológica de acesso, porém, não é a única responsável por afastar os brasileiros do cinema. A exibição de filmes ainda é uma atividade lucrativa, mas voltada para um público específico, morador das grandes cidades, com acesso a ambientes elitizados, e disposto a assistir apenas a produções americanas de grande orçamento. Assim, o cinema como evento democrático, onde pessoas diferentes podiam comungar da mesma experiência, deixa de existir para dar lugar a pulverização, onde há muitas opções para assistir a um filme, mas a magia da sala de cinema é para uns poucos que podem pagar, o que coloca o cinema no mesmo grupo de lazer elitizado onde já se encontram hoje o teatro, os espetáculos musicais e até o acesso a parques.
Ainda que as tecnologias disponibilizem maneiras simples de assistir a um filme, não se deve negligenciar a experiência do cinema – e, para isso, é preciso torná-lo popular novamente. Uma saída é a expansão da rede, com subsídios do Governo Federal, via Ministério da Cultura, para exibidores que construírem novas salas em cidades de pequeno e médio porte e que, também via aporte federal e estadual, possam oferecer ingressos a preços populares. Se a ida ao cinema for novamente um programa de lazer financeiramente viável, ficaremos mais próximos de rever as filas comuns dos cinemas dos anos 70, onde as pessoas se encontravam e compartilhavam uma experiência única.
Manual de Redação é um material produzido pelo professor Vinício dos Santos, docente do campus Matão do Instituto Federal de São Paulo. Salvo quando há sinalização do contrário, o conteúdo desta página foi integralmente produzido pelo professor. A reprodução deste material é livre, desde que haja atribuição da fonte, com link para a página e crédito ao autor. Maio de 2026.