AULA #08

Agora aguenta o que você fez

Argumentação por causa e consequência

por Vinício dos Santos

A quinta maneira de construir uma redação é a mais comum entre todas: a argumentação que articula causa e consequência.

Quando usar

Este é o modelo de argumentação mais comum e acessível para os estudantes, porque é aquele em que é mais fácil “encher” a argumentação: um parágrafo é dedicado a explicar as causas do tema, enquanto o seguinte se volta para as consequências que aquilo tem na sociedade. Assim, essa é a estratégia coringa, que vai funcionar para todos os temas porque exige menos repertório, mas, por outro lado, pode levar a notas ligeiramente baixas, justamente pela ausência de aprofundamento.

Neste aspecto, a argumentação por exemplo pode funcionar em qualquer tema, já que eles são propostos considerando o mundo real. A dificuldade desta estratégia é que o exemplo não pode entrar na redação apenas para ilustrar o ponto de vista defendido, mas ser a razão da argumentação.

Como construir a argumentação

Quando a base da argumentação são a causa e consequência de um problema, as respostas para estas questões ajudam a montar o texto:

  • Qual é o problema a ser debatido sobre o tema?
  • Quais são as causas desse problema? Elas são de natureza estrutural? Histórica? Social? Psicológica?
  • Quais são os efeitos desse problema na sociedade?
  • Qual é o grupo atingido por esse problema?
  • Qual é o pior cenário para estas consequências?

A estratégia mais simples para a argumentação de causa e consequência é aquela em que o primeiro parágrafo da argumentação fala das causas do problema – como ele acontece, quem ele atinge, e a razão da sua existência -, enquanto o segundo parágrafo foca nas consequências, também considerando estes mesmos aspectos.

Essa abordagem pode ser enriquecida se, ao tratar das consequências, seja possível ligá-las com aspectos específicos das causas, em sentenças como “X acontece, justamente, por causa de Y”. Com este expediente, o autor do texto mostra que há vinculação entre as partes, sem a necessidade de que o leitor complete as lacunas.

Outro ponto importante é que essa argumentação não é uma simples lista de causas e de consequências. Para haver uma dissertação, é necessário que o autor opine sobre os fatos. Assim, ao trazer uma causa para o problema (por exemplo, uma sociedade machista, ou falta de investimento no setor) é necessário comentá-lo ou criticá-lo. O mesmo vale para as consequências.

Por fim, esta abordagem de argumentação é bastante aberta a recursos de repertório, com citações, estatísticas e exemplos, que podem servir para justificar as causas ou ilustrar as consequências.

O início do texto

A introdução de textos que irão abordar causa e consequência é direta: o tema é apresentado, sua importância é ressaltada, e o parágrafo pode ser encerrado como uma sentença como “a solução do problema passa por compreender suas causas e consequências na sociedade”.

A conclusão do texto

Redações feitas com base em causa e consequência têm uma tarefa dupla na proposta de intervenção: propor soluções que ataquem as causas e resolvam as consequências do problema. Isso, porém, depende do tema tratado porque, em alguns casos, as causas são históricas e não podem ser desfeitas. Quando isso ocorre, deve haver uma sinalização na proposta, para justificar porque ela se volta exclusivamente para as consequências.

De modo geral, a proposta segue na linha de impedir as causas ou, na impossibilidade disso, diminuir a força das consequências. Se ambas as coisas forem possíveis, o melhor caminho é apresentá-las de forma separada (por exemplo, “para impedir que X aconteça, deve-se…. Além disso, os efeitos de X podem ser contornados com…).

O que pode dar errado

Um erro comum é “queimar a largada”, e esgotar toda a argumentação sobre causa e consequência em um único parágrafo. Isso pode ser evitado com um bom plano de texto, que estrutura a redação com dois parágrafos, um para cada aspecto.

Como as definições de causa e consequência vão tocar em tópicos específicos, outro problema é sugerir soluções que não se aplicam a eles. Por exemplo, uma redação sobre algum tipo de violência ou intolerância, que explique que as vítimas não têm meios de fazer as denúncias, não pode sugerir um endurecimento das leis ou das penas aos agressores – afinal, o problema não está na punição do crime, mas se eles chegam ou não às autoridades.

Para concluir

A redação com estrutura de causa e consequência é, certamente, a mais acessível, porque funciona em todos os temas e exige pouco repertório do estudante. Ainda assim, essa abordagem demanda cuidado para ser realmente efetiva e não se tornar uma lista de informações desconexas.

A seguir, observe dois exemplos de redação com argumentação de fundo histórico, sobre o tema 2019 do ENEM, “Democratização do acesso ao cinema no Brasil”. A primeira redação tem diversos problemas, enquanto a segunda procurar seguir a estratégia apresentada nesta aula.

redação um

Antigamente, as pessoas frequentavam mais o cinema, e havia muito mais salas de cinema no país. Hoje em dia, o número de salas diminui, e há menos gente indo ao cinema, em comparação. Assim, é preciso entender por que houve essa mudança e o que ela significa.

Hoje em dia, existem muito mais jeitos de se assistir a um filme: na televisão, no aparelho de DVD, no serviço de streaming ou até de graça na internet. Por causa disso, as pessoas preferem ver o filme em casa do que ir ao cinema. Uma assinatura de Netflix custa 30 reais, e dá direito a assistir quantos filmes quiser, enquanto o ingresso de cinema custa a mesma coisa, mas só deixa assistir a um filme, então por isso as pessoas preferem ficar em casa do que ir ao cinema.

Hoje também as redes de cinema só querem ganhar dinheiro em cima das pessoas, então por isso o ingresso custa caro e nem todo mundo pode pagar. O preço da comida no cinema também é muito caro, e se uma família quiser levar os filhos pequenos, o valor sairá muito alto. Ninguém tem dinheiro para gastar desse jeito, então as pessoas escolhem gastar com outra coisa, como comida ou balada, ao invés de ir ao cinema.

A solução para esse problema é os ingressos de cinema ficarem mais baratos, porque aí as pessoas vão achar que vale a pena ir ao cinema e assistir a um filme na tela grande, ao invés de assistir pelo celular. Quando o ingresso ficar barato, com certeza o cinema vai voltar a ser frequentado pelas pessoas e teremos um país melhor.

redação dois

Segundo dados de 2019 da Ancine (Agência Nacional de Cinema), durante os anos 70, o Brasil possuía mais de três mil salas de cinema espalhadas por todo o país. Atualmente, porém, houve um encolhimento dessa quantidade, para pouco mais de duas mil, concentradas nas grandes cidades e nos cinemas modelo multiplex dos shopping centers. Esta mudança, mais do que uma redução da oferta de lazer, também aponta para uma transformação na nossa maneira de assistir e, em última instância, no direito à arte.

O parque exibidor dos anos 70 indica que o cinema era um negócio lucrativo e altamente popular no Brasil, até por não possuir plataformas rivais para o acesso a filmes. Com o avanço da televisão e, a partir dos anos 2010, dos serviços de streaming, há uma explosão nas oportunidades para assistir a um filme. Paradoxalmente, este aumento é favorável à democratização das obras audiovisuais, mas prejudicial à experiência de ir ao cinema, que diante das facilidades do consumo doméstico, passa a ser entendido como uma opção onerosa e para poucos.

A facilidade tecnológica de acesso, porém, não é a única responsável por afastar os brasileiros do cinema. A exibição de filmes ainda é uma atividade lucrativa, mas voltada para um público específico, morador das grandes cidades, com acesso a ambientes elitizados, e disposto a assistir apenas a produções americanas de grande orçamento. Assim, o cinema como evento democrático, onde pessoas diferentes podiam comungar da mesma experiência, deixa de existir para dar lugar a pulverização, onde há muitas opções para assistir a um filme, mas a magia da sala de cinema é para uns poucos que podem pagar, o que coloca o cinema no mesmo grupo de lazer elitizado onde já se encontram hoje o teatro, os espetáculos musicais e até o acesso a parques.

Ainda que as tecnologias disponibilizem maneiras simples de assistir a um filme, não se deve negligenciar a experiência do cinema – e, para isso, é preciso torná-lo popular novamente. Uma saída é a expansão da rede, com subsídios do Governo Federal, via Ministério da Cultura, para exibidores que construírem novas salas em cidades de pequeno e médio porte e que, também via aporte federal e estadual, possam oferecer ingressos a preços populares. Se a ida ao cinema for novamente um programa de lazer financeiramente viável, ficaremos mais próximos de rever as filas comuns dos cinemas dos anos 70, onde as pessoas se encontravam e compartilhavam uma experiência única.

Manual de Redação é um material produzido pelo professor Vinício dos Santos, docente do campus Matão do Instituto Federal de São Paulo. Salvo quando há sinalização do contrário, o conteúdo desta página foi integralmente produzido pelo professor. A reprodução deste material é livre, desde que haja atribuição da fonte, com link para a página e crédito ao autor. Maio de 2026.

Este material fez uso de Inteligência Artificial generativa para produção de suas imagens e para a revisão linguística dos textos.