AULA #07
Argumentação por exemplo
por Vinício dos Santos
A quarta maneira de escrever a redação é usando a argumentação por exemplo.
A argumentação por exemplo acontece quando usamos de um acontecimento real e reconhecível para comprovar um ponto de vista. O uso de exemplos talvez seja o ponto máximo do repertório que o candidato pode demonstrar em uma redação, porque indica conhecimento sobre o tema a ponto de identificar situações do mundo que se encaixem ali, e que foram trazidas de casa.
Neste aspecto, a argumentação por exemplo pode funcionar em qualquer tema, já que eles são propostos considerando o mundo real. A dificuldade desta estratégia é que o exemplo não pode entrar na redação apenas para ilustrar o ponto de vista defendido, mas ser a razão da argumentação.
Quando a base da argumentação é um exemplo, as respostas para estas questões ajudam a montar o texto:
A argumentação por exemplo precisa garantir que a situação trazida para o texto esteja costurada em seu desenvolvimento. Para isso, temos que equilibrar dois aspectos: o micro (o exemplo) e o macro (a discussão mais ampla sobre o tema). Esta relação existe porque o exemplo é a manifestação real de toda a discussão teórica sobre aquele tema, ao mesmo tempo em que a discussão é a explicação para a ocorrência daquele exemplo.
Pensando nisso, a argumentação pode seguir dois caminhos, que chegam ao mesmo lugar: partir do exemplo para chegar à discussão geral, ou partir da discussão geral para chegar ao exemplo
No primeiro formato, usamos uma parte do primeiro parágrafo da argumentação para descrever o exemplo, posicionando as peças necessárias para o argumento que pretendemos desenvolver. No final do parágrafo, damos o salto de esfera da discussão, com sentenças como “este é mais um exemplo de X” ou “situações assim estão inseridas no cenário de X”. Já o parágrafo seguinte, o segundo da argumentação, expõe a visão mais ampla e, sempre que estabelecer um conceito ou opinião, deve aproximá-los do exemplo (“como aconteceu com o aspecto Y do exemplo”).
O segundo molde de desenvolvimento, em que saímos do macro para o micro, é uma inversão da posição das peças: o primeiro parágrafo da argumentação faz uma reflexão mais aberta sobre o tema, e é concluído com o salto para o nível micro (em frases como “o que pode ser claramente visto no exemplo Y”). Já a segunda parte da argumentação se concentra em descrever o exemplo, já encaixando suas características nos conceitos levantados anteriormente.
Tratar do exemplo no texto todo, mostrando como ele representa a discussão mais ampla, vai garantir que o repertório não soe gratuito ou seja subutilizado no texto.
A abertura de um texto que fará uma argumentação por exemplo demanda cuidado. Como o exemplo será apresentado somente em um momento posterior do texto, de forma breve e, depois, de maneira detalhada, a menção ao caso particular pode constar na introdução, mas de maneira bastante enxuta, para evitar falar duas vezes a mesma coisa. Isso pode ser alcançado com uma abertura mais ampla para o texto, com a necessidade de discutir o tema e a indicação que há exemplos importantes na sociedade – sem detalhar quais sejam.
É possível iniciar o texto com uma descrição maior do caso particular, dizendo que ele é um exemplo do tema do texto. Ao fazer isso, porém, deve-se evitar descrever novamente a situação posteriormente texto, uma vez que ela já foi apresentada. Assim, começar o texto com o exemplo quebra a estratégia de apresentá-lo mais adiante, e cria a necessidade de construir dois parágrafos de argumentação que relacionem a reflexão e o exemplo, o que pode nem sempre ser viável.
A menção ao exemplo é obrigatória na conclusão, para amarrar o texto e mostrar como ele todo foi pensando a partir dessa abordagem. Para fazer isso, pode-se começar o parágrafo com sentenças como “Para permitir que mais situações como X aconteçam” (em cenários positivos) ou “Para impedir que mais situações como X ocorram” (em cenários negativos). Tenha em mente, porém, que a intervenção sugerida não é para o caso real que você trouxe, mas para o problema que ele simboliza.
O primeiro problema pode a redação contiver um exemplo que não pode ser reconhecido. Idealmente, deve-se usar situações que tiveram grande repercussão no país, e cuja simples referência seja suficiente para o leitor relembrar o caso.
Ainda na linha anterior, outro erro é a concepção equivocada sobre o que seja um exemplo. Para se configurar como um recurso de qualidade, o exemplo precisa ser uma situação única, que aconteceu em um lugar e um tempo, de preferência, com alguém identificável. Referências como “as mulheres agredidas por seus parceiros” ou “as vítimas da chuva” não funcionam como exemplo, pois não são específicos.
Por fim, um problema comum em argumentações via exemplo é deixar de fazer a passagem entre o caso e o tema que ele simboliza, levando o texto a focar unicamente no exemplo e no debate sobre ele.
A construção de uma argumentação com um exemplo real sobre o tema é uma estratégia que demonstra grande domínio de repertório, mas que exige cuidado para entrelaçar exemplo e tema, de maneira que ele não soe gratuito nem ocupe mais espaço do que deveria
A seguir, observe dois exemplos de redação com argumentação de fundo histórico, sobre o tema 2019 do ENEM, “Democratização do acesso ao cinema no Brasil”. A primeira redação tem diversos problemas, enquanto a segunda procurar seguir a estratégia apresentada nesta aula.
redação um
Antigamente, as pessoas frequentavam mais o cinema, e havia muito mais salas de cinema no país. Hoje em dia, o número de salas diminui, e há menos gente indo ao cinema, em comparação. Assim, é preciso entender por que houve essa mudança e o que ela significa.
Hoje em dia, existem muito mais jeitos de se assistir a um filme: na televisão, no aparelho de DVD, no serviço de streaming ou até de graça na internet. Por causa disso, as pessoas preferem ver o filme em casa do que ir ao cinema. Uma assinatura de Netflix custa 30 reais, e dá direito a assistir quantos filmes quiser, enquanto o ingresso de cinema custa a mesma coisa, mas só deixa assistir a um filme, então por isso as pessoas preferem ficar em casa do que ir ao cinema.
Hoje também as redes de cinema só querem ganhar dinheiro em cima das pessoas, então por isso o ingresso custa caro e nem todo mundo pode pagar. O preço da comida no cinema também é muito caro, e se uma família quiser levar os filhos pequenos, o valor sairá muito alto. Ninguém tem dinheiro para gastar desse jeito, então as pessoas escolhem gastar com outra coisa, como comida ou balada, ao invés de ir ao cinema.
A solução para esse problema é os ingressos de cinema ficarem mais baratos, porque aí as pessoas vão achar que vale a pena ir ao cinema e assistir a um filme na tela grande, ao invés de assistir pelo celular. Quando o ingresso ficar barato, com certeza o cinema vai voltar a ser frequentado pelas pessoas e teremos um país melhor.
redação dois
Segundo dados de 2019 da Ancine (Agência Nacional de Cinema), durante os anos 70, o Brasil possuía mais de três mil salas de cinema espalhadas por todo o país. Atualmente, porém, houve um encolhimento dessa quantidade, para pouco mais de duas mil, concentradas nas grandes cidades e nos cinemas modelo multiplex dos shopping centers. Esta mudança, mais do que uma redução da oferta de lazer, também aponta para uma transformação na nossa maneira de assistir e, em última instância, no direito à arte.
O parque exibidor dos anos 70 indica que o cinema era um negócio lucrativo e altamente popular no Brasil, até por não possuir plataformas rivais para o acesso a filmes. Com o avanço da televisão e, a partir dos anos 2010, dos serviços de streaming, há uma explosão nas oportunidades para assistir a um filme. Paradoxalmente, este aumento é favorável à democratização das obras audiovisuais, mas prejudicial à experiência de ir ao cinema, que diante das facilidades do consumo doméstico, passa a ser entendido como uma opção onerosa e para poucos.
A facilidade tecnológica de acesso, porém, não é a única responsável por afastar os brasileiros do cinema. A exibição de filmes ainda é uma atividade lucrativa, mas voltada para um público específico, morador das grandes cidades, com acesso a ambientes elitizados, e disposto a assistir apenas a produções americanas de grande orçamento. Assim, o cinema como evento democrático, onde pessoas diferentes podiam comungar da mesma experiência, deixa de existir para dar lugar a pulverização, onde há muitas opções para assistir a um filme, mas a magia da sala de cinema é para uns poucos que podem pagar, o que coloca o cinema no mesmo grupo de lazer elitizado onde já se encontram hoje o teatro, os espetáculos musicais e até o acesso a parques.
Ainda que as tecnologias disponibilizem maneiras simples de assistir a um filme, não se deve negligenciar a experiência do cinema – e, para isso, é preciso torná-lo popular novamente. Uma saída é a expansão da rede, com subsídios do Governo Federal, via Ministério da Cultura, para exibidores que construírem novas salas em cidades de pequeno e médio porte e que, também via aporte federal e estadual, possam oferecer ingressos a preços populares. Se a ida ao cinema for novamente um programa de lazer financeiramente viável, ficaremos mais próximos de rever as filas comuns dos cinemas dos anos 70, onde as pessoas se encontravam e compartilhavam uma experiência única.
Manual de Redação é um material produzido pelo professor Vinício dos Santos, docente do campus Matão do Instituto Federal de São Paulo. Salvo quando há sinalização do contrário, o conteúdo desta página foi integralmente produzido pelo professor. A reprodução deste material é livre, desde que haja atribuição da fonte, com link para a página e crédito ao autor. Maio de 2026.