AULA #06

É igual aquela outra vez

Argumentação por analogia

por Vinício dos Santos

A terceira maneira de construir uma dissertação é a partir da argumentação por analogia ou comparação.

Quando usar

A argumentação por analogia é aquela em explicamos e opinamos sobre um tema fazendo uma comparação com outro tema. Isso pode ser feito de duas maneiras:

(1) Os temas comparados são próximos e, por isso, o que serve para um, também vai servir para o outro.

(2) Os temas são próximos, mas o que funciona para um não funciona para o outro, por alguma característica específica de um deles.

As argumentações por analogia, naturalmente, demandam um repertório sólido, porque, além de tratar do tema solicitado, o candidato ainda precisa dominar o outro assunto ao qual pretende se referir para fazer a comparação. Por isso, essa é uma abordagem mais sofisticada, e que só deve ser aplicada se houver segurança sobre os dois temas em questão.

A argumentação por analogia é de grande utilidade quando queremos comparar problemas semelhantes, como segregação, violência e descaso com um grupo social, se houver outra comunidade que também sofre com as mesmas questões, ainda que de forma diferente. Outro cenário propício para analogia é quando o tema da redação é mais abstrato. Neste caso, a analogia ajuda a “fincá-lo na realidade”, isto é, converter conceitos amplos em situações materiais do dia a dia.

Por fim, a analogia ainda pode ser mais complexa, e levar um tema do cotidiano para o reino das metáforas e do simbolismo, quando explicamos um assunto através de uma comparação incomum.

Como construir a argumentação

Quando a base da argumentação é a analogia, as respostas para as questões a seguir ajudam a montar o texto:

  • Qual é o assunto com o qual esse tema pode ser comparado?
  • O que aproxima estes dois temas?
  • O que diferencia estes dois temas?
  • Por que aquilo que funcionou para um deles não funciona para o outro?
  • A solução para o problema principal deve ser a mesma solução dada para o outro problema?

A argumentação por analogia tem uma construção mais delicada, porque envolve tratar do tema principal e trazer outro tema para o texto, mas de maneira secundária e, exclusivamente, para dialogar com o primeiro.
Desta forma, a comparação ocupa um espaço reduzido dentro dos parágrafos de argumentação, e deve aparecer somente quando alguma reflexão sobre o tema já foi feita. Isso funciona ao escrever sobre o assunto (geralmente, usando a estrutura de “informação + comentário”) e, em seguida, utilizando expressões como “Nesse sentido, X se aproxima de Y, porque…” ou “Em certa medida, o que acontece com X é o mesmo que ocorre com Y, pois…”.
Uma vez que uma comparação foi estabelecida, o segundo parágrafo da argumentação pode se aprofundar nela, falando mais sobre o “segundo assunto”, mas sempre puxando o texto de volta para o tema principal. Uma estratégia para fazer isso acontecer é, sempre que algo for dito sobre o outro tema, estabelecer uma comparação com o mesmo aspecto do tema principal, com a intenção de emitir uma opinião.

O início do texto

A argumentação por analogia já pode ser iniciada na introdução do texto, mas de maneira sutil. Depois de apresentar o tema, sua relevância e seus problemas, o parágrafo de introdução pode ser finalizado indicando que aquele assunto mantém aproximações com outras questões sociais.

Essa referência deve ser feita de maneira velada, isto é, sem dizer qual é a comparação, apenas mencionando que ela existe. Como a proposta da argumentação é trazê-la apenas em um momento posterior do texto (primeiro, indicando qual é, e somente depois se aprofundando), a menção direta já no primeiro parágrafo vai queimar etapas, fazer com que a revelação posterior fique repetitiva e, por fim, sugerir ao leitor que aquele texto tem por finalidade comparar os dois tópicos, quando, na verdade, a comparação tem um papel reduzido dentro dele.

A conclusão do texto

A conclusão da argumentação por analogia não pode ignorar o “segundo tema” trazido para a discussão. Assim, na passagem em que se faz a proposta de intervenção, o primeiro passo é sinalizar se aquela solução é a mesma aplicada no outro tema, ou se é outra saída, e por qual razão. Depois, seguem as descrições usuais (quem faz, de que maneira, quem é o público-alvo) e, ao final, ao tratar da consequência e do resultado desejado, volta-se novamente para a comparação, seja para dizer que se espera chegar no mesmo ponto daquele outro tema, seja para dizer que a expectativa é triunfar onde houve o fracasso da outra questão.

O que pode dar errado

O primeiro e pior erro é estabelecer uma analogia que não funciona, quando os temas não são comparáveis. Se isto acontecer, a redação é inteiramente prejudicada, porque o seu ponto de partida é falso.

O segundo erro é mudar a trajetória da redação e fazer com que o segundo tema ganhe um protagonismo que ele não deveria ter. Lembre que a comparação está lá para ajudar a compreender e discutir o primeiro tema, e não para brilhar sozinha. Dentro do espírito dessa aula, o elemento novo que você trouxe para o texto deve se comportar como a Lua ao redor da Terra, cujos movimentos e luz dependem do planeta. Se, na comparação, o segundo tema se tornar um Sol para a sua Terra, então alguma coisa saiu errada.

O terceiro erro, bastante comum, é não se aprofundar o suficiente na comparação. Redações que introduzem a comparação, em sentença do tipo “Pensando nisso, a situação X se parece muito com o problema Y”, e nunca mais tocam no assunto, não desenvolvem a analogia e deixam para o leitor resolver porque aqueles tópicos são próximos.

Para concluir

A argumentação por analogia pode produzir um texto rico em repertório e reflexão, mas há um risco razoável de o resultado ser uma redação desequilibrada ou, no pior cenário, que não faz sentido.

A seguir, observe dois exemplos de redação com argumentação de fundo histórico, sobre o tema 2019 do ENEM, “Democratização do acesso ao cinema no Brasil”. A primeira redação tem diversos problemas, enquanto a segunda procurar seguir a estratégia apresentada nesta aula.

redação um

Antigamente, as pessoas frequentavam mais o cinema, e havia muito mais salas de cinema no país. Hoje em dia, o número de salas diminui, e há menos gente indo ao cinema, em comparação. Assim, é preciso entender por que houve essa mudança e o que ela significa.

Hoje em dia, existem muito mais jeitos de se assistir a um filme: na televisão, no aparelho de DVD, no serviço de streaming ou até de graça na internet. Por causa disso, as pessoas preferem ver o filme em casa do que ir ao cinema. Uma assinatura de Netflix custa 30 reais, e dá direito a assistir quantos filmes quiser, enquanto o ingresso de cinema custa a mesma coisa, mas só deixa assistir a um filme, então por isso as pessoas preferem ficar em casa do que ir ao cinema.

Hoje também as redes de cinema só querem ganhar dinheiro em cima das pessoas, então por isso o ingresso custa caro e nem todo mundo pode pagar. O preço da comida no cinema também é muito caro, e se uma família quiser levar os filhos pequenos, o valor sairá muito alto. Ninguém tem dinheiro para gastar desse jeito, então as pessoas escolhem gastar com outra coisa, como comida ou balada, ao invés de ir ao cinema.

A solução para esse problema é os ingressos de cinema ficarem mais baratos, porque aí as pessoas vão achar que vale a pena ir ao cinema e assistir a um filme na tela grande, ao invés de assistir pelo celular. Quando o ingresso ficar barato, com certeza o cinema vai voltar a ser frequentado pelas pessoas e teremos um país melhor.

redação dois

Segundo dados de 2019 da Ancine (Agência Nacional de Cinema), durante os anos 70, o Brasil possuía mais de três mil salas de cinema espalhadas por todo o país. Atualmente, porém, houve um encolhimento dessa quantidade, para pouco mais de duas mil, concentradas nas grandes cidades e nos cinemas modelo multiplex dos shopping centers. Esta mudança, mais do que uma redução da oferta de lazer, também aponta para uma transformação na nossa maneira de assistir e, em última instância, no direito à arte.

O parque exibidor dos anos 70 indica que o cinema era um negócio lucrativo e altamente popular no Brasil, até por não possuir plataformas rivais para o acesso a filmes. Com o avanço da televisão e, a partir dos anos 2010, dos serviços de streaming, há uma explosão nas oportunidades para assistir a um filme. Paradoxalmente, este aumento é favorável à democratização das obras audiovisuais, mas prejudicial à experiência de ir ao cinema, que diante das facilidades do consumo doméstico, passa a ser entendido como uma opção onerosa e para poucos.

A facilidade tecnológica de acesso, porém, não é a única responsável por afastar os brasileiros do cinema. A exibição de filmes ainda é uma atividade lucrativa, mas voltada para um público específico, morador das grandes cidades, com acesso a ambientes elitizados, e disposto a assistir apenas a produções americanas de grande orçamento. Assim, o cinema como evento democrático, onde pessoas diferentes podiam comungar da mesma experiência, deixa de existir para dar lugar a pulverização, onde há muitas opções para assistir a um filme, mas a magia da sala de cinema é para uns poucos que podem pagar, o que coloca o cinema no mesmo grupo de lazer elitizado onde já se encontram hoje o teatro, os espetáculos musicais e até o acesso a parques.

Ainda que as tecnologias disponibilizem maneiras simples de assistir a um filme, não se deve negligenciar a experiência do cinema – e, para isso, é preciso torná-lo popular novamente. Uma saída é a expansão da rede, com subsídios do Governo Federal, via Ministério da Cultura, para exibidores que construírem novas salas em cidades de pequeno e médio porte e que, também via aporte federal e estadual, possam oferecer ingressos a preços populares. Se a ida ao cinema for novamente um programa de lazer financeiramente viável, ficaremos mais próximos de rever as filas comuns dos cinemas dos anos 70, onde as pessoas se encontravam e compartilhavam uma experiência única.

Manual de Redação é um material produzido pelo professor Vinício dos Santos, docente do campus Matão do Instituto Federal de São Paulo. Salvo quando há sinalização do contrário, o conteúdo desta página foi integralmente produzido pelo professor. A reprodução deste material é livre, desde que haja atribuição da fonte, com link para a página e crédito ao autor. Maio de 2026.

Este material fez uso de Inteligência Artificial generativa para produção de suas imagens e para a revisão linguística dos textos.