AULA #05

Você acha uma coisa, mas eu acho outra

Argumentação por oposição de ideias

por Vinício dos Santos

A segunda maneira de construir argumentação é por oposição de ideias.

Quando usar

A argumentação por antagonismo é aquela que apresenta dois pontos de vista sobre o tema e faz um juízo sobre eles. Para alcançar isso, é importante considerar dois aspectos:

A primeira é de que os pontos de vista não precisam ser opostos: basta que sejam diferentes. Uma redação sobre desafios da mobilidade urbana, por exemplo, poderia debater se o melhor caminho é a opção por veículos de menor potencial poluidor, como os elétricos, ou a ampliação de transportes públicos, como ônibus e trens. Em casos assim, a prevalência de uma visão não necessita da destruição da outra.

O segundo ponto é que os assuntos podem apresentar dois lados, mas um deles é inaceitável. É o caso de reflexões sobre violência, segregação, preconceitos etc., cujas defesas não podem ser toleradas de forma alguma. Isso, porém, não é impedimento para abordar temas dessa maneira. Como veremos adiante, é possível trazer pontos de vista terríveis para o texto, desde que eles estejam lá justamente para serem desmontados e criticados.

Como construir a argumentação

Quando a base da argumentação é o conflito de ideias, as respostas para as questões a seguir ajudam a montar o texto:

  • Quais são as duas visões sobre o assunto?
  • A existência de uma implica, necessariamente, na destruição da outra?
  • Quem pensa e adota cada uma dessas opiniões?
  • Por que as pessoas têm essas opiniões?
  • Há interesses por trás de cada uma delas?
  • Algum destes pontos de vista está correto?
  • Quais são os problemas do lado que a redação vai considerar como incorreto?
  • Quais são os pontos positivos do lado que a redação vai considerar como correto?
  • A melhor opção é uma mistura entre os pontos de vista?

A argumentação em dois parágrafos que envolve o antagonismo é bastante direta: um dos parágrafos trata de um ponto de vista, enquanto o parágrafo seguinte aborda a outra visão. Contudo, não se trata apenas de apresentar um lado e outro: a argumentação tem que ser inteiramente construída para mostrar se um lado está correto.

Isso é alcançado com uma estratégia simples: apresentar o “lado errado” e explicar quais são os problemas dele e, depois, apresentar o “lado certo” e falar sobre como ele corrige os problemas do “lado errado”. Aqui, vale lembrar: usamos “certo” e “errado” dentro do contexto da redação, isto é, aquilo que o autor declara como certo e errado.

O início do texto

A ideia do antagonismo precisa aparecer já na introdução do texto, que apresenta o assunto e indica, brevemente, quais são os dois lados que a redação vai considerar. Além disso, a introdução também já pode apontar qual lado será defendido pelo texto.

A conclusão do texto

Redações escritas com argumentação por antagonismo acabam tendo duas conclusões: a primeira é sobre qual dos lados discutidos é o correto ou, eventualmente, se o melhor caminho é uma terceira opção. Se bem construída, essa conclusão é desenvolvida naturalmente ao longo do texto, sem a necessidade de escrever “por isso, a posição X é a correta”.

Uma vez que o texto deixou claro qual é a maneira de resolver o problema discutido, a proposta de intervenção, no caso das redações do ENEM, se volta para descrever como essa solução é colocada em prática. Outra forma de lidar com a proposta é sugerir mecanismos que impeçam que o “lado negativo” continue prevalecendo, e assim o “lado positivo” possa sair vitorioso.

Há também outro caminho: se a argumentação apontar para uma mudança negativa (isto é, algo que piorou com o tempo), então a proposta não se volta para o que falta mudar, mas para como impedir essa mudança.

O que pode dar errado

O primeiro erro é não deixar claro ao leitor que as visões diferentes apresentadas no texto estão na sociedade, e não são as opiniões do autor. Quando simplesmente reproduzimos as visões sobre o tema, sem indicar de onde vem tais pensamentos, fica parecendo que é o próprio autor quem tem essas ideias conflitantes – e isso é ainda pior quando uma delas é, como mencionamos antes, inaceitável.

O segundo erro consiste em acreditar que o caminho para esse tipo de redação é apresentar os dois lados e, somente ao final, opinar sobre o que seria correto. Essa trajetória, resumida em algo como “existe A, existe B e, portanto, B está certo” é uma argumentação que não se sustenta, porque o princípio básico da dissertação é opinar e justificar. Assim, a adoção de uma posição precisa ficar clara ao longo de todo o texto, e não somente no final.

Por fim, um erro grave na oposição de visões é o não emitir uma decisão, encerrando o texto com alguma consideração genérica, do tipo “a questão é muito complexa e merece ser debatida”, ou “cabe a cada um decidir o que é melhor”. Ainda que pareça uma forma de se mostrar imparcial e justo, esta tentativa está na direção oposta à da dissertação, que quer um posicionamento.

Para concluir

O sucesso da argumentação por antagonismo passa por um juízo de valor claro sobre qual dos lados apresentados é o correto, em vez da simples apresentação destes pontos de vista.

A seguir, observe dois exemplos de redação com argumentação de fundo histórico, sobre o tema 2019 do ENEM, “Democratização do acesso ao cinema no Brasil”. A primeira redação tem diversos problemas, enquanto a segunda procurar seguir a estratégia apresentada nesta aula.

redação um

Antigamente, as pessoas frequentavam mais o cinema, e havia muito mais salas de cinema no país. Hoje em dia, o número de salas diminui, e há menos gente indo ao cinema, em comparação. Assim, é preciso entender por que houve essa mudança e o que ela significa.

Hoje em dia, existem muito mais jeitos de se assistir a um filme: na televisão, no aparelho de DVD, no serviço de streaming ou até de graça na internet. Por causa disso, as pessoas preferem ver o filme em casa do que ir ao cinema. Uma assinatura de Netflix custa 30 reais, e dá direito a assistir quantos filmes quiser, enquanto o ingresso de cinema custa a mesma coisa, mas só deixa assistir a um filme, então por isso as pessoas preferem ficar em casa do que ir ao cinema.

Hoje também as redes de cinema só querem ganhar dinheiro em cima das pessoas, então por isso o ingresso custa caro e nem todo mundo pode pagar. O preço da comida no cinema também é muito caro, e se uma família quiser levar os filhos pequenos, o valor sairá muito alto. Ninguém tem dinheiro para gastar desse jeito, então as pessoas escolhem gastar com outra coisa, como comida ou balada, ao invés de ir ao cinema.

A solução para esse problema é os ingressos de cinema ficarem mais baratos, porque aí as pessoas vão achar que vale a pena ir ao cinema e assistir a um filme na tela grande, ao invés de assistir pelo celular. Quando o ingresso ficar barato, com certeza o cinema vai voltar a ser frequentado pelas pessoas e teremos um país melhor.

redação dois

Segundo dados de 2019 da Ancine (Agência Nacional de Cinema), durante os anos 70, o Brasil possuía mais de três mil salas de cinema espalhadas por todo o país. Atualmente, porém, houve um encolhimento dessa quantidade, para pouco mais de duas mil, concentradas nas grandes cidades e nos cinemas modelo multiplex dos shopping centers. Esta mudança, mais do que uma redução da oferta de lazer, também aponta para uma transformação na nossa maneira de assistir e, em última instância, no direito à arte.

O parque exibidor dos anos 70 indica que o cinema era um negócio lucrativo e altamente popular no Brasil, até por não possuir plataformas rivais para o acesso a filmes. Com o avanço da televisão e, a partir dos anos 2010, dos serviços de streaming, há uma explosão nas oportunidades para assistir a um filme. Paradoxalmente, este aumento é favorável à democratização das obras audiovisuais, mas prejudicial à experiência de ir ao cinema, que diante das facilidades do consumo doméstico, passa a ser entendido como uma opção onerosa e para poucos.

A facilidade tecnológica de acesso, porém, não é a única responsável por afastar os brasileiros do cinema. A exibição de filmes ainda é uma atividade lucrativa, mas voltada para um público específico, morador das grandes cidades, com acesso a ambientes elitizados, e disposto a assistir apenas a produções americanas de grande orçamento. Assim, o cinema como evento democrático, onde pessoas diferentes podiam comungar da mesma experiência, deixa de existir para dar lugar a pulverização, onde há muitas opções para assistir a um filme, mas a magia da sala de cinema é para uns poucos que podem pagar, o que coloca o cinema no mesmo grupo de lazer elitizado onde já se encontram hoje o teatro, os espetáculos musicais e até o acesso a parques.

Ainda que as tecnologias disponibilizem maneiras simples de assistir a um filme, não se deve negligenciar a experiência do cinema – e, para isso, é preciso torná-lo popular novamente. Uma saída é a expansão da rede, com subsídios do Governo Federal, via Ministério da Cultura, para exibidores que construírem novas salas em cidades de pequeno e médio porte e que, também via aporte federal e estadual, possam oferecer ingressos a preços populares. Se a ida ao cinema for novamente um programa de lazer financeiramente viável, ficaremos mais próximos de rever as filas comuns dos cinemas dos anos 70, onde as pessoas se encontravam e compartilhavam uma experiência única.

Manual de Redação é um material produzido pelo professor Vinício dos Santos, docente do campus Matão do Instituto Federal de São Paulo. Salvo quando há sinalização do contrário, o conteúdo desta página foi integralmente produzido pelo professor. A reprodução deste material é livre, desde que haja atribuição da fonte, com link para a página e crédito ao autor. Maio de 2026.

Este material fez uso de Inteligência Artificial generativa para produção de suas imagens e para a revisão linguística dos textos.