AULA #04

Entenda que as coisas mudaram

Argumentação de fundo histórico

por Vinício dos Santos

Nesta primeira parte sobre como construir a dissertação-argumentativa, abordamos a argumentação de fundo histórico.

Quando usar

A argumentação de fundo histórico serve para comparar dois momentos diferentes relacionados a um tema ou, mais especificamente, como ele era (no passado) e como ele é (no presente). Sempre que tratamos de questões sociais do país, é simples reconhecer que houve algum tipo de transformação naquela área. Assim, essa abordagem é bastante ampla e funcionará para muitos temas, o que não significa, porém, que sua execução seja simples. Para funcionar, ela dependerá bastante do repertório do estudante sobre o assunto, para poder escrever sobre seus dois momentos.

Como construir a argumentação

Se a base dessa argumentação é uma comparação entre passado e presente, as respostas para as questões a seguir ajudam a montar o texto:

  • Qual foi a mudança no tema, na comparação entre estes dois momentos?
  • A mudança foi para melhor ou para pior?
  • Quais forças e influências foram responsáveis por essa mudança?
  • A aceitação dessa mudança foi pacífica ou houve resistência?
  • O que ainda falta mudar?

A argumentação não deve ser uma sequência dessas respostas, mas ser estruturada a partir delas. Um arranjo possível é produzir o primeiro parágrafo de argumentação descrevendo como as coisas eram no passado, opinando que elas hoje são melhores ou piores, e explicando quais ações produziram a mudança. Depois, o segundo parágrafo da argumentação pode discutir a resistência à mudança, quais foram as razões para isso, e de que maneira o conflito entre mudar e não mudar continua existindo na sociedade.

O início do texto

Como a argumentação vai trabalhar com a perspectiva da mudança histórica, essa ideia já precisa aparecer na introdução. De forma breve, o primeiro parágrafo deve contar como as coisas são hoje e como eram antigamente, se possível, usando um exemplo ou a comparação de dados dos dois momentos. Por fim, conclui-se o parágrafo apontando que a redação vai discutir o desenvolvimento da mudança, e os impactos que ela trouxe para a sociedade.

A conclusão do texto

A proposta de intervenção se relaciona à última pergunta sugerida: o que ainda falta mudar. Assim, o estudante deve elaborar uma proposta que forneça meios de vencer as resistências à mudança e faça a sociedade alcançar o estado ideal em relação àquele tema, concluindo a transformação.

Há também outro caminho: se a argumentação apontar para uma mudança negativa (isto é, algo que piorou com o tempo), então a proposta não se volta para o que falta mudar, mas para como impedir essa mudança.

O que pode dar errado

Por ausência de repertório, o estudante pode falhar em escrever sobre os dois momentos ou sobre as transformações ocorridas. Sem um conhecimento sólido sobre o assunto, arrisca-se a produzir uma redação que simplesmente diz “antes era ruim, agora é melhor”, sem nada que sustente essa opinião.

Outro risco é escrever um texto que não argumenta, enchendo a redação com descrições sobre como era antes e como é agora, supondo que a simples apresentação das duas situações é uma opinião. A descrição dos momentos é fundamental nesse tipo de dissertação, mas só vai funcionar se for acompanhada de algum tipo de julgamento ou reflexão.

Para concluir

A argumentação por comparação histórica tem potencial para funcionar em todos os temas, mas depende de que o estudante tenha conhecimento suficiente sobre o assunto para não fazer uma comparação superficial entre passado e presente

A seguir, observe dois exemplos de redação com argumentação de fundo histórico, sobre o tema 2019 do ENEM, “Democratização do acesso ao cinema no Brasil”. A primeira redação tem diversos problemas, enquanto a segunda procurar seguir a estratégia apresentada nesta aula.

redação um

Antigamente, as pessoas frequentavam mais o cinema, e havia muito mais salas de cinema no país. Hoje em dia, o número de salas diminui, e há menos gente indo ao cinema, em comparação. Assim, é preciso entender por que houve essa mudança e o que ela significa.

Hoje em dia, existem muito mais jeitos de se assistir a um filme: na televisão, no aparelho de DVD, no serviço de streaming ou até de graça na internet. Por causa disso, as pessoas preferem ver o filme em casa do que ir ao cinema. Uma assinatura de Netflix custa 30 reais, e dá direito a assistir quantos filmes quiser, enquanto o ingresso de cinema custa a mesma coisa, mas só deixa assistir a um filme, então por isso as pessoas preferem ficar em casa do que ir ao cinema.

Hoje também as redes de cinema só querem ganhar dinheiro em cima das pessoas, então por isso o ingresso custa caro e nem todo mundo pode pagar. O preço da comida no cinema também é muito caro, e se uma família quiser levar os filhos pequenos, o valor sairá muito alto. Ninguém tem dinheiro para gastar desse jeito, então as pessoas escolhem gastar com outra coisa, como comida ou balada, ao invés de ir ao cinema.

A solução para esse problema é os ingressos de cinema ficarem mais baratos, porque aí as pessoas vão achar que vale a pena ir ao cinema e assistir a um filme na tela grande, ao invés de assistir pelo celular. Quando o ingresso ficar barato, com certeza o cinema vai voltar a ser frequentado pelas pessoas e teremos um país melhor.

redação dois

Segundo dados de 2019 da Ancine (Agência Nacional de Cinema), durante os anos 70, o Brasil possuía mais de três mil salas de cinema espalhadas por todo o país. Atualmente, porém, houve um encolhimento dessa quantidade, para pouco mais de duas mil, concentradas nas grandes cidades e nos cinemas modelo multiplex dos shopping centers. Esta mudança, mais do que uma redução da oferta de lazer, também aponta para uma transformação na nossa maneira de assistir e, em última instância, no direito à arte.

O parque exibidor dos anos 70 indica que o cinema era um negócio lucrativo e altamente popular no Brasil, até por não possuir plataformas rivais para o acesso a filmes. Com o avanço da televisão e, a partir dos anos 2010, dos serviços de streaming, há uma explosão nas oportunidades para assistir a um filme. Paradoxalmente, este aumento é favorável à democratização das obras audiovisuais, mas prejudicial à experiência de ir ao cinema, que diante das facilidades do consumo doméstico, passa a ser entendido como uma opção onerosa e para poucos.

A facilidade tecnológica de acesso, porém, não é a única responsável por afastar os brasileiros do cinema. A exibição de filmes ainda é uma atividade lucrativa, mas voltada para um público específico, morador das grandes cidades, com acesso a ambientes elitizados, e disposto a assistir apenas a produções americanas de grande orçamento. Assim, o cinema como evento democrático, onde pessoas diferentes podiam comungar da mesma experiência, deixa de existir para dar lugar a pulverização, onde há muitas opções para assistir a um filme, mas a magia da sala de cinema é para uns poucos que podem pagar, o que coloca o cinema no mesmo grupo de lazer elitizado onde já se encontram hoje o teatro, os espetáculos musicais e até o acesso a parques.

Ainda que as tecnologias disponibilizem maneiras simples de assistir a um filme, não se deve negligenciar a experiência do cinema – e, para isso, é preciso torná-lo popular novamente. Uma saída é a expansão da rede, com subsídios do Governo Federal, via Ministério da Cultura, para exibidores que construírem novas salas em cidades de pequeno e médio porte e que, também via aporte federal e estadual, possam oferecer ingressos a preços populares. Se a ida ao cinema for novamente um programa de lazer financeiramente viável, ficaremos mais próximos de rever as filas comuns dos cinemas dos anos 70, onde as pessoas se encontravam e compartilhavam uma experiência única.

Manual de Redação é um material produzido pelo professor Vinício dos Santos, docente do campus Matão do Instituto Federal de São Paulo. Salvo quando há sinalização do contrário, o conteúdo desta página foi integralmente produzido pelo professor. A reprodução deste material é livre, desde que haja atribuição da fonte, com link para a página e crédito ao autor. Maio de 2026.

Este material fez uso de Inteligência Artificial generativa para produção de suas imagens e para a revisão linguística dos textos.